“Eu, Daniel Blake”, não é um filme de arte

Trailer do curta: Revoltado offline: retrato trágico de um homem médio
julho 20, 2016
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“Eu, Daniel Blake”, não é um filme de arte

A história envolve Daniel Blake (Dave Johns) que sofre um ataque cardíaco e é orientado por médicos especialistas a não retornar ao trabalho, daí ele busca receber os benefícios concedidos pelo governo. No entanto, ele esbarra na extrema burocracia instalada pelo governo, por funcionários terceirizados (de uma empresa norteamericana), potencializada ainda por ser um analfabeto digital. Numa de suas várias idas a departamentos governamentais, ele conhece Katie (Hayley Squires), uma mãe solteira de duas crianças de pais diferentes, que se mudou recentemente para a cidade e também não possui condições financeiras para se manter. Após defendê-la, Daniel se aproxima de Katie e passa a ajudá-la e adquire uma espécie de papel de pai-avô.

Com este filme, o diretor Ken Loach de 80 anos foi o vencedor da Palma de Ouro em Cannes em Maio de 2016. Um festival Mainstream. Todavia, é bonito ver um diretor com esta idade estar atuante e muito lúcido do que ocorre na atualidade. Ken Loach é um humanista, um homem de esquerda que milita por meio de seus filmes. Na mesma linha, este é um filme ideológico, portanto não Hollywoodiano por assim dizer. Um filme sem pessoas esteticamente atraentes, com famílias com problemas financeiros e com dificuldade de conseguir emprego ou se adaptar a eles, com problemas sociais e de instituições e um filme crítico a alguns elementos do capitalismo.

Com atores com boas atuações, mas nada extraordinário e com baixo custo de produção o filme ganha pelo roteiro ser fiel a realidade global.  No entanto, no viés artístico é um filme ruim, do meio para o quase final o filme se perde no roteiro (fica piegas em alguns momentos, pouco criativo e muito previsível) e volta um pouco melhor no finalzinho. Além disso, algumas falas nos textos podiam ser melhor trabalhadas. O filme não é inovador porque não traz nada de novo. É um filme moderno, já muito feito no passado. É um filme fácil de ser digerido e que por isso pode agradar a muitos. Não valeria um prêmio e nem vai agradar os cinéfilos. Mas vale mesmo assim ser assistido por ser transparente da realidade econômica e social mundial. Em um Mundo cada vez mais conservador. Veja pelos resultados das eleições em todo o Mundo. Neste sentido, a sociedade precisa assistir filmes que mostrem as desigualdades sociais e o sofrimento e dificuldades dos mais necessitados para de um lado mobilizá-la e de outro incluí-los.

De positivo no filme fica a solidariedade como um repertório muito presente. Que revela que a humanidade ainda persiste nesta sociedade competitiva. Mais que a solidariedade é o envolvimento afetivo dos personagens. Há muitos exemplos para ilustrar isso: o presente dos peixinhos de madeira, as conversas íntimas, os ensinamentos às crianças, o zelo com os mais necessitados, a ajuda de uma funcionária do governo e de amigos no uso da internet… O protagonista de positivo representa e ensina sobre humanidade, força, ética, solidariedade, impaciência com a injustiça… O personagem principal é destoante porque é modelo de moral, princípios e coletividade em uma sociedade líquida como a atual onde a individualidade é mais valorizada.

Na Europa do século XXI, crises e programas de austeridade econômica também tem ganhado destaque em filmes. Como se sabe, a austeridade econômica, em geral, aperta a vida dos mais pobres. Esta película revela muito bem isso, um drama comum que retrata o Mundo complexo atual que vivemos. O filme se passa na Inglaterra, no segundo país mais rico da Europa, onde a burocracia e o abuso do Estado fica acima da minoria que precisa de benefícios sociais concedidos pelo governo. Mas, tais situações poderiam ocorrer em qualquer canto do planeta. O paradigma neste filme é kafkaniano. Há uma condição de imprevisibilidade e incontrolabilidade nas pessoas pobres e desempregadas que dependem do governo e que produz a curto prazo pessoas irritadas, agressivas, desesperadas e a médio e longo prazo pessoas apáticas, com depressão, com ideação suicída e com a perda da dignidade. Tal condição incontrolável, ainda pode levar pessoas à prostituição, ao roubo como forma de sobrevivência. Há também a reação de revolta (contracontrole) de algumas pessoas que não aceitam o sistema injusto que impera nesta sociedade. O filme foi muito elogiado pela crítica europeia por se tratar de um filme que retrata fielmente o que se passa na Europa atualmente. As ligações feitas pela personagem principal para resolver problemas com o governo britânico lembram no Brasil a nossa tentativa de resolver problemas com as companhias de telefone e de convênios médicos. Uma burocracia por meio de protocolos que faz o reclamante ficar num círculo em espiral sem fim.

Algumas comparações na história do cinema podem ser elencadas. O neorrealismo italiano[fusion_builder_container hundred_percent=”yes” overflow=”visible”][fusion_builder_row][fusion_builder_column type=”1_1″ background_position=”left top” background_color=”” border_size=”” border_color=”” border_style=”solid” spacing=”yes” background_image=”” background_repeat=”no-repeat” padding=”” margin_top=”0px” margin_bottom=”0px” class=”” id=”” animation_type=”” animation_speed=”0.3″ animation_direction=”left” hide_on_mobile=”no” center_content=”no” min_height=”none”][1] de 1942 a 1952 foi um cinema rico, defendido pelo famoso crítico e intelectual francês André Bazin, marcado por mostrar a dura realidade da sociedade italiana durante e após a segunda guerra mundial com uma estética ímpar. Em relação ao realismo cinematográfico, o personagem Daniel Blake tem uma semelhança com a personagem Clara do filme “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho. Ambos personagens ficaram em seus passados. Uma ouve a coleção de vinis e o outro apresenta a fita K7 para uma criança. Ambos são humanistas, teimosos ou obstinados, mas estão no limite de suas forças contra o status quo das grandes corporações e do Estado que querem aniquilá-los ou ignorá-los.  Vale lembrar que ambos filmes competiram em Cannes.

O filme “Eu, Daniel Blake” revolta quem assistiu e ao sair do cinema me deparei com muitas pessoas limpando as lágrimas diante de um homem e sua luta inglória. O filme não ganha pela arte, mas pela realidade escancarada do Mundo contemporâneo. Se você se emociona ao ver injustiça leve um lenço.

[1] Os primeiros filmes do Neorrealismo italiano[1] foram: “Roma, cidade aberta”, de 1945; “Alemanha ano zero”, de 1947, de Roberto Rosselini; “Vítimas da tormenta”, de 1947 de Vittorio de Sica; “Ladrões de bicicleta”, de 1948, de Vittorio de Sica e a “A terra treme”, de 1948 de Luchino Visconti.

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