As escadas do Brasil doméstico para as próximas gerações

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As escadas do Brasil doméstico para as próximas gerações

O escravo de antes e o de agora – O filmes nacional “Que horas ela volta? (2015) de Anna Muylaert é como um poema de Manoel de Barros aparentemente simples, divertido à primeira vista, mas profundo nas entrelinhas. O roteiro talha as nuances da realidade hipócrito-nacional de padrões de comportamento em uma relação desigual de poder. É uma película de um denso drama familiar com humor que fornece uma aula de práticas culturais inadequadas formadas desde o Brasil colônia. O filme revela detalhadamente o quanto ainda há do livro “Casa Grande e Senzala”, clássico de Gilberto Freyre da década de 1930, que tenta fazer uma análise interpretativa do Brasil nas relações de trabalho. Por meio deste filme bem humorado e trágico ao mesmo tempo, é possível ver o quanto o Brasil vem se libertando das heranças escravagistas nos últimos anos. Retrata centralmente a busca por cidadania ao mesmo tempo de forma incisiva revela o apartheid social no país. O filme escancara a realidade dura dos empregados domésticos e alerta para as transformações sociais que o país obteve nos últimos anos.

Premiações e indicação – Este filme foi indicado para representar o Brasil no Oscar, e foi premiado nos festivais de Sundance e Berlim.

A sinopse – O filme conta justamente a história do conflito que surge entre uma família de classe média alta ou rica de São Paulo e a empregada pernambucana há anos depois que ela decide trazer sua filha para morar na casa dos patrões. Val (Regina Casé) se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino vai prestar vestibular, Jéssica lhe telefona, pedindo ajuda para ir à São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir determinadas regras sociais de classe, circulando livremente, como não deveria, dá início a uma crise.

Número de empregados domésticos e sua invisibilidade – Segundo pesquisa conduzida pelo IBGE, em 2011 o número de empregados domésticos no Brasil era de 6,6 milhões de pessoas, sendo 92,6% mulheres e 61% dessas negras, e, nas regiões sul e sudeste, um imenso contingente de migrantes nordestinas, como Val, a protagonista do filme. Esse número coloca o país como o de maior número de pessoas nessa ocupação em todo o mundo. Vale observar que as empregadas domésticas são vistas como figuras invisíveis. Nota-se também, paralelamente que a trabalhadora doméstica sempre foi retratada de maneira superficial ou como papel secundário no cinema brasileiro.

A cineasta e a força feminina – Em uma sociedade patriarcal e machista aprende-se na escola que apenas os homens poderosos, no sentido específico de gênero, escrevem a História. Esse homem que valoriza o desempenho, a força e o poder como valores. Em oposição, a cineasta esculpiu um filme para mostrar a força do feminino, revelar a importância do trabalho da mãe, da força da jovem politizada, do carinho da mãe dado mesmo no cansaço do trabalho, do amor incondicional e assim por diante. Há uma importância do papel materno no filme, que relega a paternidade a segundo plano. Um dos momentos mais emocionantes, por exemplo, é o orgulho da mãe ao ver a filha passar na primeira fase do vestibular. É de comover porque a filha está alcançando aquilo que a mãe não conseguiu na vida: a ascensão intelectual. Este filme, portanto, homenageia todas as Marias, Sebastianas, Franciscas que lutaram pelo sustento de suas famílias no Brasil e que espera que seus filhos a superem socialmente.

Discriminação social e espacial – A película revela um país que não é mais miserável, mas que ainda tem muitas dívidas históricas profundas a pagar, como o racismo de classe e a profunda segregação social brasileira, marcada pelas origens étnicas, apesar da mistura evidente de raças (mestiçagem). A arquitetura da casa simboliza essa divisão social.

Há relações saudáveis entre patrões e empregados domésticos, mas o filme clareia a realidade que muitos empregados domésticos viveram e vivem no Brasil. É uma reflexão crítica sobre as contradições sociais brasileiras, com uma raiz tão profunda na escravatura que sobrevive na mentalidade dos patrões, poderia permanecer presente nas casas algo tão bizarro quanto o “quarto de empregada”, uma representação direta da senzala. A diferença de tratamento e as normas sociais exigidas pela autoridade: “Nunca entrar na piscina dos patrões”, “Nunca comer junto com os patrões”, saber separar alas, utensílios, alimentos… O sorvete mais barato para os empregados e o sorvete mais caro para os donos da casa representa a diferença simbólica de tratamento. Ou ainda levar e trazer coisas até a boca dos patrões, mesmo quando seria fácil os mesmos fazerem. Além disso, o fato da patroa trabalhar fora e não ter tempo com o filho faz o papel da Val de uma mãe postiça e afetiva. Isso revela a perversidade dos laços entre patrões e empregados domésticos no Brasil. Um pais em que a babá viaja com a família, mas está sempre longe de seus próprios filhos.

Vira-latismo latino – De certo modo, é observado no filme a camiseta do Ramones do jovem, os escritos em inglês na camiseta do pai representa a dominação cultural norteamericana na sociedade brasileira. Além de referências a produtos importados como mais chiques e melhores.

A PEC das empregadas e a escravidão tardia – Uma dívida secular de nosso país para com aqueles que servem a burguesia. A PEC das empregadas deu um grande passo no sentido da profissionalização da doméstica. Fazer com que seja uma profissão como qualquer outra, que garanta à categoria uma parcela dos direitos já garantidos há tanto tempo pela constituição brasileira. O governo federal, neste sentido, conseguiu aprovar leis que vão produzir mais dignidade aos trabalhadores domésticos. Apesar da imensa revolta que isso gerou em tantas senhoras de classe média (pequeno burguesas). No entanto, ainda falta muito para a sociedade brasileira abandonar seus arraigados hábitos coloniais ou escravagistas. Vale sempre lembrar que o Brasil foi o último país da América a libertar os escravos. Isso só aconteceu por causa de possíveis embargos econômicos dos países mais ricos da época caso o Brasil não fizesse a Lei Aurea. Em outras palavras, o Brasil não escolheu a liberdade por amadurecimento.

Desentendimentos entre gerações – A mãe e a filha não se entendem porque tem repertórios distintos. A mãe vem de uma história de controle coercitivo (provavelmente pais que não orientaram, ausentes, autoritários…), de falta de recursos, de déficit de estudos. A filha também vem de uma história amarga, no entanto é de uma geração que teve mais oportunidades de acesso a informação. Ganhos principalmente devido aos últimos governos que contribuíram com mais verbas para questões básicas e acesso a escolaridade. Reflexo de um Brasil pós-Lula. O sacrifício da mãe também fez ela estudar em escolas melhores. Além disso, a filha teve a oportunidade de ter aula com uma figura significativa, um professor de História, que ensinou sobre as desigualdades sociais e de Direito. A História, a Filosofia, a Sociologia tem como principal objetivo ensinar ética, cidadania, democracia. A Psicologia também deveria ter esta função. No filme a jovem demonstra ser politizada e que bebeu da sabedoria dos universais. Neste sentido, a filha ensina que é possível quebrar o impostamente estabelecido, as regras de convivência sociais. Martela a relação naturalizada de senhor e de escravo construída ao decorrer da História brasileira.

O que representa cada personagem:

A patroa – A patroa no filme representa a vaidade e a vileza. A preocupação dela em mais parecer que ser. O espelho de Narciso. De se preocupar mais consigo que com as pessoas ao seu redor. Do uso da queixa (histrionismo) para ganhar atenção e revelar suas mazelas. Duro ver o fato dela não dar o mínimo de atenção a empregada doméstica, uma total falta de empatia. Um retrato fiel das mesquinharias de uma parte das classes mais abastadas brasileiras, o asco e a baixeza de alguns patrões.

O patrão – O marido representa a insegurança, a incompetência e a desilusão. A dificuldade de enfrentar a vida, de não ser assertivo com o Mundo: O déficit de repertório em pessoa. Fica então a única coisa a dizer que o estigmatiza em seu mais baixo instinto: Quer casar comigo?

Fabinho – O filho dos patrões representa a carência, a dependência, a insegurança e a afetividade. Fabinho, ainda que mimado, não vê o Mundo com as lentes dos pais. Ele puxa Jéssica para a piscina como mais uma igual. Quem se descabela com a “falta de noção” do jovem é sua mãe. Ele não dá a mínima se a empregada ou filha comeu ou não seu sorvete preferido. Ele consegue ser afetivo e vê um pouco melhor o humano que existe do outro lado. Ele também quer passar no vestibular, ainda que não saiba muito o que quer. Como muitos filhos mimados de materiais e carentes de afeto e orientação nas camadas sociais mais privilegiadas.

Jéssica – A filha da empregada representa a coragem e a liberdade. Ela quer ser arquiteta, construir talvez a beleza que no Brasil não é direito de quem mora nas periferias e interiores. Foi prestar vestibular em São Paulo, e não ficou insegura diante da desigualdade social; não se subjugou ou se submeteu. Com opinião firma e com argumentações Jéssica questiona as relações de poder e a extrema dependência dos empregados, que fazem parte da família. Uma pessoa segura de si. Uma figura que não seria compreendida provavelmente antes do governo Lula. Ela quer muito ler um determinado livro. A obra, que aparece de relance, é “Viva o povo brasileiro”, clássico de João Ubaldo Ribeiro que tenta recontar a História brasileira pelo ponto de vista dos excluídos — pobres, negros, índios, mulheres. Jéssica, uma menina jovem, politizada e confiante, cumpre o interessante papel de desnaturalizar a relação de poder que havia ali. O pular da piscina da moça é como o fenômeno famosos dos ‘rolezinhos’ nos shoppings. Pobre não pode ir para lugares onde as classes mais favorecidas estão, mesmo constatando que não há roubos nestes multirões de ir e vir”.

Val – A empregada representa a insegurança, a prisão, a simplicidade e a afetividade (amor incondicional). Esta mãe obedece a uma lógica passiva. Não questiona as agências de controle. Ela cria um elo afetivo com o público devido a sua generosidade e bom humor. Em parte, gostamos dos programas de culinária porque além da comida ser um reforçador primário (um prazer primitivo), está associado a afeto. Em toda a nossa história evolutiva a mãe foi responsável de intermediar o acesso a alimento que também representa o afeto. Portanto, a comida é sobrevivência e doçura. Val é a figura que protege, dá carinho, cuida, alimenta… como um ato comum de uma figura feminina de nossa história evolutiva. Raiz do amor. O amor maternal. Ao querer o neto perto e tentar criar um vínculo com a filha que se perdeu no passado pelas circunstâncias que os mais desprivilegiados convivem constantemente. Val, que cumpriu um papel central na criação de Fabinho, filho de seus patrões, tem uma relação de carinho sincera e recíproca com ele. Em certa altura do filme, entrar numa piscina com pouca água é um sinal libertário por ser vetada. É um sinal de rebeldia. É subversivo. Talvez motivada pelo encontro com a filha, o encontro com a mudança e com a esperança.

O mundo da luz e a das sombras: o instrumento para a subida – A luta de uma mãe explorada, mas motivada para que sua filha estude é como se ela segurasse uma escada pesada para a filha subir, ao passo que esta sobe e observa, encanta-se e permanece aprendendo a ver o mundo com novos horizontes, a mãe nas sombras não consegue enxergar a claridade total do que está acontecendo porque o tempo todo esteve segurando a escada para a filha chegar lá. O que reforça a mãe é ver a filha subir e superá-la. A filha de início não entende a mãe porque não entende o papel da escada, mas ela é importante porque é instrumento para se chegar ao saber. Infelizmente muitas pessoas neste contexto não conseguem colocar-se no lugar do outro. É o que acontece comumente de uma geração para a outra.

Relações de trabalho são travestidas de relações de afeto – Val não tem horário certo de trabalho, não bate cartão, está lá na casa de seus patrões (que é o lugar onde mora sem ser a sua casa) do amanhecer até a noite, servindo a mesa do café e os “drinks” na festa de aniversário da patroa à noite, sem receber hora extra. Não há limite entre o trabalho e o “favorzinho” à patroa, que, afinal, é “uma mãe” a tal ponto que Val a presenteia no seu aniversário. O ambiente é complexo, pois as relações de trabalho se misturam às afetivas em um microcosmo em que a distância entre o campo profissional e o doméstico pode ser a distância da sala de jantar para a cozinha.

Progresso: de objeto a sujeito – O jovem Fabinho não pensa em iniciar sexualmente a filha da empregada, como ocorreu por muito tempo em diversos lares brasileiros. Nem a moça pensa em ficar com ele pela possibilidade de ascensão social. Na vida real, as novas plantas da classe média já dispensam a área da empregada; elevadores que separam moralmente empregados domésticos e trabalhadores das de moradores locais estão cada vez mais sendo extintos.  A empregada do modelo atual está mais para ter casa, carteira assinada, férias e dignidade. Afinal, é uma relação de trabalho e não de servidão. E a filha dela tem a escolha de querer, ou não, seguir a profissão com que a mãe tirou o sustento para dar à filha a oportunidade de mudança social.