Nota de esclarecimento do discurso do padre Marcelo Rossi

Quando a Ciência é usada por homens nobres
fevereiro 11, 2015
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Nota de esclarecimento do discurso do padre Marcelo Rossi

Eu, psicólogo Reginaldo do Carmo Aguiar, humildemente, em nome dos profissionais da área clínica cognitiva e da área clínica comportamental venho por meio deste texto esclarecer sobre a formação e atuação profissional devido às declarações do padre Marcelo Rossi em relação à uma entrevista do dia 12 de novembro de 2015 em que o mesmo causou um desserviço à sociedade brasileira.

Primeiramente, vale ressaltar a importância que um líder religioso tem para sua comunidade no sentido de ajudar espiritualmente seus integrantes e produzir conforto e paz interior. Atualmente existem muitas pesquisas científicas que revelam que pessoas mais religiosas ou espiritualizadas conseguem superar com mais facilidade perdas ou lidar melhor com determinados sofrimentos. Apesar do respeito pela dedicação do exercício deste padre em seu âmbito católico e midiático é necessário criticar discursos distorcidos que entram em territórios desconhecidos que prejudicam o exercício profissional do psicólogo e também para que a verdade dos fatos venha à tona para pessoas que estão em sofrimento e necessitam de ajuda psicológica profissional adequada consigam encontrar soluções.

Veja o vídeo na íntegra de sua declaração:

“É a mesma coisa de um psiquiatra e um psicólogo. Qual a diferença? O psiquiatra é médico, o psicólogo é apenas um conselheiro, um terapeuta. (…) O nutrólogo é um médico que se especializou na parte alimentar, portanto ele é muito mais que o nutricionista. Tem o enfermeiro e tem o médico. Quem que opera? O médico. Com todo respeito aos enfermeiros… Todo mundo tem a sua função e a sua importância. Os nutricionistas também têm” (trecho da declaração).

O Padre Marcelo Rossi disse: “O psicólogo é um conselheiro”. Com esta frase ele rotulou de forma caricata e reduziu a ação do profissional a meros “conselhos”. Um comentário infeliz e inoportuno. Isso porque o comportamento social de “dar conselhos”, “dar opiniões” e “ser conselheiro” são atividades permitidas a quaisquer pessoas “comuns” como amigos, parentes, funcionários etc.

Longe disso, o psicólogo cognitivo e/ou comportamental faz análise de contingências passadas e atuais do cliente que tem como objetivo conhecer a história de vida de uma pessoa e entender como ela reage ao seu ambiente. O terapeuta com isso ensina a pessoa a adquirir autoconhecimento e conhecimento do seu entorno. Este profissional também orienta de forma sistemática seu cliente, respeitando sempre seus limites, repertórios comportamentais (excessos e déficits comportamentais) e emoções. Um profissional qualificado da área não orienta, por exemplo, um tímido a se aproximar de uma garota que ele deseja, sem antes ensinar algumas habilidades socio-afetivas. Logo, o profissional não apenas analisa às contingências mas também ensina as mais diversas habilidades compatíveis para que o indivíduo se adapte melhor ao seu ambiente. Pode ainda por meio de técnicas cognitivas comprovadas cientificamente modificar e propor pensamentos, regras, autorregras e crenças mais adequadas que aumentem a qualidade de vida do cliente.

O profissional da área necessita de uma teoria de base científica, do aprendizado de métodos, procedimentos, estratégias e técnicas. Tal conhecimento é construído com base em rigorosas pesquisas sobre o comportamento, sempre com a preocupação em verificar seus métodos por meio de pesquisas controladas. Tudo isso embasado em teorias baseadas em evidências experimentais (em ratos, pombos, macacos… e seres humanos). Um trabalho de pesquisa árduo e extremamente minucioso que envolve a leitura de inúmeros artigos científicos e capítulos de livros da área. Além do uso de ferramentas estatísticas para comprovar tendências, desvios padrões, hipóteses, erros… As pesquisas precisam ser replicadas até a exaustão para ser confiáveis. Além disso, o pesquisador participa de congressos científicos para apresentar trabalhos e debater resultados e hipóteses. Isso é Ciência experimental de alta qualidade que produz conhecimento em cima de uma base teórico-prático coerente e mais segura.

A formação de um psicólogo comportamental e/ou cognitivo implica em cinco anos de formação em Psicologia (em instituições públicas e católicas podem ser inclusive em período integral). Além de especialização na área (lato sensu) que em geral duram mais dois anos de formação, e ainda com estágio supervisionado. Muitos psicólogos da área comportamental e/ou cognitiva fazem ainda cursos de aprofundamento, mestrado e doutorado (stricto sensu) para compreender mais profundamente as pesquisas da área e ajudar outros pesquisadores e até mesmo seus clientes no processo de autoconhecimento e mudança comportamental. Isso tudo sem contar com as horas infindáveis de supervisão, psicoterapia pessoal e participações em grupos de estudo, congressos, seminários, palestra e cursos da área. Ainda sobre sua formação, pode se dizer, grosseiramente, que o repertório de um bom psicólogo cognitivo e/ou comportamental implica em:

a) Conhecimentos biológicos da área de: Psicofarmacologia, Neuropsicologia, Evolução, Anatomia, Fisiologia, Neuroanatomia, Neurofisiologia, Genética, Drogas e Neurociências;

b) Conhecimentos psicológicos da área de: Psicologia do desenvolvimento, Psicologia da personalidade, Psicologia experimental, Psicologia comportamental, Psicologia cognitiva;

c) Conhecimentos culturais da área de: Filosofia, Sociologia, História, Antropologia, Inglês e Psicologia Social;

d) Conhecimentos específicos: Filosofia da mente (behaviorismo, cognitivismo, modelos computacionais…), Estatística, Artes (Literatura, filmes, documentários…), Orientação profissional e Pesquisa básica e aplicada.

Este profissional da Psicologia atende em consultórios na orientação de crianças com problema de desenvolvimento cognitivo, social e afetivo, além de adolescentes, adultos, idosos e casais que estão em sofrimento. O profissional ainda pode fazer pesquisa, ensinar, atuar em hospitais, escolas, empresas, órgãos públicos, ONGs e nas mais diversas áreas, inserindo a Psicologia na Assistência Social, na Educação, no Trânsito, no Esporte, no Sistema Jurídico, no Sistema Socioeducativo ou no planejamento de políticas sociais mais humanizadas. Em relação ao profissional da área clínica, para se ter ideia, nos Estados Unidos e na Inglaterra as terapias comportamentais e as cognitivas são as mais divulgadas, difundidas, praticadas, procuradas e estudadas. Além disso, o tratamento de maior eficácia para o autismo nos Estados Unidos é reconhecidamente de orientação exclusivamente comportamental.

O conhecimento é um universo aberto e algumas áreas foram se especializando e criando seus próprios espaços profissionais. Neste sentido, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e outros profissionais da saúde são especializados em suas respectivas áreas podendo algumas dialogar com outras ou não com a finalidade de melhorar a qualidade de vida do indivíduo adoecido. Mas isso não implica em uma superioridade de uma profissão sobre a outra. Inclusive a ideia atual no campo da saúde mundial é que exista cada vez mais a interdisciplinaridade, o diálogo entre profissões diferentes com respeito mútuo. De vantajoso é que essa comunicação entre áreas distintas aumenta a compreensão sobre o ser humano, apesar dela não conseguir oferecer todas as respostas.

Diversas pesquisas revelam que o tratamento de doenças psicológicas graves (depressão grave, TOC, esquizofrenia, dependência química…) tem na medicação (psiquiatra) em conjunto com a psicoterapia (psicólogo) um resultado mais rápido e mais eficaz. Vale ressaltar que medicação não ensina habilidades. Tomar um antidepressivo não vai desenvolver habilidades de enfrentamento para a pessoa lidar melhor com a perda do parceiro amoroso, por exemplo, mas a psicoterapia pode ensinar formas de lidar melhor com a perda para que isso não se transforme em um trauma, ou pelo menos atenuá-lo. Pode ensinar habilidades para retornar a vida de solteiro de forma mais adaptativa, pode ainda ensinar repertórios assertivos e afetivos para lidar com os próximos parceiros e assim por diante. O tratamento exclusivamente medicamentoso pode ainda produzir alguns efeitos indesejáveis como acontece em alguns casos em que a pessoa torná-se dependente do fármaco a vida toda ou ainda aumenta até doses cavalares. O Clonazepan (mais conhecido como Rivotril) é o segundo medicamento mais prescrito no Brasil.  Um medicamento de tarja preta (que causa dependência e aumenta as doses gradualmente). Um problema sério que o Ministério da Saúde faz vistas grossas. Por fim, estudos mostram que o êxito terapêutico contempla a competência dos profissionais envolvidos, a aliança terapêutica (vínculo cliente-profissional), a combinação ou não de medicação ou desmame gradual e sistemático (diminuir a medicação lentamente) e o compromisso ou engajamento do cliente na realização de tarefas extra consultório.

Veja que a atuação do psicólogo comportamental e/ou cognitivo assim como sua formação está muito além de um mero conselheiro como citado pelo padre. O padre Marcelo Rossi é uma celebridade da mídia, uma figura pública, cujas palavras têm repercussões na vida de muitas pessoas. Neste sentido, as considerações feitas neste texto fazem-se necessárias para diminuir os preconceitos da população brasileira, assim como diminuir a resistência a busca de ajuda haja vista a grande demanda por um acompanhamento psicológico especializado ou ainda por muitos considerarem a Psicologia como perda de tempo ou um tratamento para loucos. Os comentários do padre são equivocados também em relação a profissão de enfermeiro e nutricionista. Neste sentido, os psicólogos comportamentais e/ou cognitivos também se solidarizam com tais profissionais.

“Um homem não sente dificuldade em caminhar por uma tábua enquanto acredita que ela está apoiada no solo; mas ele vacila – e afinal despenca – ao se dar conta de que a tábua está suspensa sobre um abismo.” – Avicena (século XI D.C.)

Um abraço amigo,

Reginaldo

Reginaldo do Carmo Aguiar é psicólogo clínico comportamental, especialista em Terapia comportamental e responsável pelo site www.comportamentosaudavel.com.br onde escreve eventualmente.